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Nasce um Torcedor – Primeira Parte

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Participação Especial do fã Adão Fernandes

O ano era 1978, eu tinha nove anos de idade, completaria 10 apenas em setembro, morava em Jataizinho no Estado do Paraná, cidade que eu tenho bastante carinho, pois foi lá que aprendi a ler e a escrever nas mãos de uma professora baixinha chamada Helena, e foi lá também que algumas das minhas paixões surgiram. Aliás, minto: não são minhas paixões, sou eu, alguns dos elementos que me definem como pessoa, surgiu justamente nesta época.
Meu irmão Jordão e eu passávamos horas, sentados na calçada da rua em frente a nossa casa, cantando músicas sertanejas. Nossa casa ficava bem em frente à Escola Joana H. M. Borba, (que era chamada de Grupo Velho).
E foi assim, cantando música sertaneja em frente à escola, ao lado do meu irmão, que eu me apaixonei por música.
Música é um dos dois pontos cardeais da minha vida, faltava apenas um, e ele surgiu na forma de “FUTEBOL”.
Perto de casa havia um terreno, palco das minhas aventuras ao lado de alguns amigos, “os irmãos Fagá (Sandro, Adriano e Valério)” – os irmãosTaia,Zete e Ney – o José – o Dorival que tinha o apelido de “Pantera” – o Eder – meu irmão Zé Carlos e meu irmão Jordão, que além de irmão, eu o considerava meu melhor amigo, e ele me defendia de tudo e de todos, com uma lealdade comovente (para mim) e assustadora (para os outros), não era apenas um irmão, ele era uma espécie de protetor.
Estes foram meus primeiros amigos, com eles eu passava o dia jogando bola na rua – e pelo menos naquela rua, o coletivo de muleque era time – (se eu ficava em casa, ou estava no quintal com a bola no pé, ou em algum canto da casa, jogando futebol de tampinha, uma espécie de futebol que eu inventei – que é parecido com futebol de botão – eu montava campeonatos enormes com regras, turno e returno), mas o que eu gostava mesmo era de estar na rua correndo atrás da bola, e modéstia a parte, eu jogava muito bem, fazia gol de placa, de bicicleta, dando chapéu, correndo para um lado e chutando a bola para o outro, deslocando o goleiro… Fazia gol de todos os tipos, dribles desconcertantes, essa tal lambreta que o Falcão faz hoje no futsal eu já fazia na época (minha especialidade), mas tinha o nome de carretilha.
Os clássicos, leia-se, os jogos com turmas de outras ruas, aconteciam em um quintal, aquele mesmo terreno que eu disse lá atrás, que era o palco das minhas aventuras, ele ficava numa esquina próximo a minha casa, hoje, ali, há uma casa enorme habitada por pessoas que não fazem ideia das glórias que eu senti naquele lugar, ao fazer gols que definiram partidas, ao acertar passes de calcanhar, ou claro, ao colocar a bola entre as pernas de alguém, glória maior que um moleque de nove anos pode ter na vida.
Assim, boa parte da minha vida se resumia a futebol, ou melhor, a futebol de rua, que tem regras um pouco diferente das regras da FIFA, como: “Prensada é da defesa”, “não vale gol fazendo tabela com carro ou com o portão”, e a clássica, “5 vira, 10 termina”. E isso tanto nos jogos entre amigos com golzinho feito com os pares de chinelo ou com pedaços de tijolos, como nos clássicos com times de outras ruas, que geralmente acabavam em briga.
E foi graças ao hábito de jogar bola o tempo todo que eu comecei a prestar atenção em alguns times como: Flamengo, Palmeiras, São Paulo, Corinthians, Santos e acabei percebendo que meu pai era torcedor de um time chamado LONDRINA ESPORTE CLUBE.
Todos os domingos meu pai sentava ao redor da mesa da cozinha para ouvir os jogos do Londrina pelo rádio, e eu ficava ali, sentado no chão da cozinha, jogando futebol de tampinha, encantado com tudo aquilo, com as narrações empolgadas dos radialistas, com a ansiedade do meu pai, com aquele clima que deixava o ambiente contagiante, provavelmente, estava mais entretido com o futebol de tampinha do que com os jogos em si.
Essas são algumas das recordações mais importantes que eu tenho da minha infância, existe muitas outras, claro:
Lembro de um dia ter ficado feliz por voltar de algum lugar, a pé, com meu pai; E lembro-me também, que na infância, eu sonhava muito que estava jogando futebol, quase todas as noites eu sonhava, era uma espécie de “sonho dentro do sonho”, no sonho eu jogava nos gramados de um estádio enorme, o curioso é que no sonho, eu ainda era criança, mas jogava junto com os craques da época, nomes que eu conhecia apenas pelo rádio, (Brandão,Garcia, Xaxá), era como se o sonho fosse um balão de histórias em quadrinhos, colocado acima da minha cabeça, ao final do jogo eu pegava a bola e colocava ao lado da minha cama, esperando encontrá-la ali quando acordasse na manhã seguinte, mas ela nunca estava lá no dia seguinte, havia ido embora, para algum lugar.
Mesmo com todas essas lembranças, eu não consigo me lembrar nitidamente do campeonato brasileiro de 1977 (que acabou no ano de 1978), mas se eu não consigo me lembrar nitidamente, consigo imaginar, já fiz isso várias vezes, e quando penso no assunto, a primeira coisa que me vem à cabeça é o pacto de Goiânia, antes disso eu não me lembro de nada, até mesmo as recordações daqueles dois jogos em Goiânia, não são muito claras, mas sei que o time do Londrina saiu daqui desacreditado e voltou com duas vitórias sobre Goiás e Vila Nova em pleno Estádio Serra Dourada e classificado para próxima fase deste campeonato.
E foi junto com o país inteiro que eu me encantei, quando o time foi atropelando seus adversários, não tinha pra ninguém, não tinha pra Flamengo, Santos, Corinthians, ou qualquer outro que fosse, e foi justamente aí, que eu me apaixonei perdidamente pelo Londrina Esporte Clube.
Mas cá entre nós, seria impossível ser moleque, gostar de futebol e não se apaixonar por aquele time.
Eu estava totalmente entregue, eu respirava futebol o tempo todo, assim que acabavam os jogos do Londrina, eu corria jogar bola na rua, lá eu me transformava em Garcia, Brandão, Xaxá, e Nenê. A rua era o gramado do Estádio do Café e a torcida não parava de gritar meu nome a cada drible, a cada passe, a cada gol.
Mas nada do que eu fiz com aquela bola na rua perto de casa, chegou perto do que o Londrina fez com o Vasco em São Jenuário, naquele jogo que ficou conhecido como “A Batalha de São Jenuário”, o Gigante da Colina caiu de forma incontestável, hoje, para mim, aquilo seria o jogo dos sonhos, mas naquela época foi apenas mais um jogo, apenas mais um show do Londrina – Vasco 0 x 2 Londrina é considerado um dos maiores jogos da história do Londrina, mas para mim, foi apenas mais uma festa. Na minha cabeça de criança, o GIGANTE era o LONDRINA. E até o presidente Geisel comentou: _ “o Vasco levou uma surra!”.
Algumas imagens daquele jogo permancem indeletáveis na minha cabeça! Aquele gol do Garcia? Eu me lembro daquilo como se tivesse acontecido agora, há horas atrás de tão vivo que ele permanece em minha memória.
Estávamos na semifinal, e o próximo adversário era o Atlético Mineiro, que estava invicto e fazia uma campanha impecável naquele campeonato.
Medo? Jamais! Aos meus olhos de menino, aquele time jamais perderia.
Assim, no dia 26 de fevereiro de 1978, Londrina e Atlético Mineiro pisaram no gramado do Mineirão para a primeira partida da semifinal…(continua)

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