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Nasce um Torcedor – Segunda Parte

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Participação especial do fã Adão Fernandes

(…)

Mas junto com o Atlético veio, Reinaldo…
Começa o jogo – foi o primeiro jogo da minha vida que eu assisti na televisão – ao lado de outros garotos da minha idade, sentado no chão da sala de uma casa que ficava na Cerâmica onde meus irmãos, “Jorge e Durval”, trabalhavam.
A vitória era certa, a derrota não passava pela minha cabeça, mas aos 18 minutos, Ziza (de pênalti) abre o placar para o Atlético, eu continuava confiante, quando aos 31 minutos Reinaldo entra em ação e faz 2 x 0 e assim terminava o primeiro tempo.
Pela primeira vez eu me peguei temendo de verdade, que o pior poderia acontecer.
E veio o segundo tempo, aos 12 minutos Brandão marca para o Londrina, 2 x 1, eu soco o ar e grito gol, com muita confiança na virada, mas o Atlético tinha Reinaldo, que aos 20 minutos faz 3 x 1, aos 28 minutos Garcia desconta para o Londrina, 3 x 2, eu cerrei o punho mais uma vez e gritei, desta vez eu gritei bem alto, gooool, e sai pulando pela sala!
Até que Reinaldo fez 4 x 2, até que o jogo acabou.
Mas tinha o jogo da volta e era no Estádio do Café, e desta vez Reinaldo (suspenso) não jogaria, era só uma vitória… E aquele time havia vencido tantas!
Assim, aquele 1º de março de 1978 entrou para história da minha vida. Eu “assisti” o jogo no rádio (como dizia meu pai), sentado no chão da cozinha, ao lado do meu pai e meus irmãos, como havia feito na maioria dos jogos daquele campeonato.
Aos 17 minutos Caio Cambalhota faz 1 x 0 para Atlético, aos 34′ Serginho faz 2 x 0, silêncio na cozinha, eu senti um nó na garganta, um gosto amargo na boca, mas resisti até o final do primeiro tempo, quando Brandão marcou 2 x 1.
Começa o segundo tempo, que eu “assisti” ajoelhado no chão da cozinha, a cada minuto eu fazia uma promessa, a cada minuto eu pedia a Deus que tudo desse certo, a cada minuto eu pedia para aquele sofrimento acabar logo, porque eu não sabia mais quanto tempo aguentaria, minhas emoções iam de oito a oitenta e voltavam para oito em segundos, eu sentia uma esperança cega e desmedida em cada ataque do Londrina, eu sentia um pavor devastador em cada ataque do Atlético, porque se você se lembra, o time do Atlético era muito bom, o time do Atlético era um timaço. O Londrina lutou com todas as suas forças até o final, e no último minuto foi coroado com um gol de Ademar, 2 x 2, mas já não havia tempo pra mais nada, Londrina 2 x 2 Atlético, e esse placar jamais seria mudado.
Estávamos fora da final. Minha mãe perguntou “e agora?” Sem entender direito as regras do campeonato. Eu olhei para o meu irmão desconsolado, procurando alguma ajuda, algum consolo, algum resquício de que ainda tinha jeito. Não tinha. Ele baixou a cabeça e saiu correndo em direção ao quarto.
Anos depois, fiquei sabendo que ele entrou correndo no quarto para apagar o 5 x 2 que havia escrito com giz na parede, antes que eu visse, mas na hora eu não sabia disso, naquela hora eu não sabia de nada, eu estava transtornado.
Não lembro ao certo o que eu fiz naquele momento, provavelmente minha mente bloqueou algumas memórias, mas lembro que eu estava na cozinha ao lado do meu pai e dos meus irmãos, e me lembro do silêncio, me lembro claramente de, ainda usando uma camisa Azul e Branca, colocar o pé no gramado que tinha na frente de casa, perto da casinha do “Dog”, e me lembro de ver a bola na minha frente. Sei que, com ódio, com raiva, com dor, fechei os olhos e chutei com toda a minha força, antes dela parar de rolar, já estava furada entre os dentes do cachorro, se esvaziando aos poucos, da mesma forma que eu. Foi aí que eu comecei a chorar. Foi só aí que eu me sentei no gramado e comecei a chorar compulsivamente, finalmente entendendo que o sonho havia acabado.
Eu queria chorar desde o segundo gol do Atlético, mas talvez eu tenha acreditado que começar a chorar seria abrir mão de qualquer esperança. Se eu chorasse durante o jogo estaria selando a derrota. E havia tempo. Eu queria acreditar que o Londrina ainda venceria aquele jogo.
E não sei por que me recusei a chorar quando o juiz apitou o final do jogo – talvez meu instinto de sobrevivência estivesse tentando evitar que eu me tornasse uma daquelas pessoas malucas por futebol, que durante 90 minutos, depositam toda sua felicidade nos pés de onze pessoas que nem sabem que elas existem, que passaria o resto da vida sofrendo por causa de um time. Se eu chorasse naquele momento, colocaria os pés numa estrada sem volta. Meu cérebro, tentando me salvar disso, lutou desesperadamente para me impedir de chorar naquele momento.
Talvez, se eu não chorasse naquele momento, os jogos do Londrina seriam apenas um lazer para mim e não uma paixão. Mas eu já estava irremediavelmente apaixonado e machucado.
Após todos os jogos anteriores do Londrina, eu era um craque na rua perto de casa, após aquele Londrina x Atlético, eu era um menino de nove anos, confuso e desorientado, sem saber o que fazer com aquela dor insuportável que rasgava meu peito e que não diminuía de jeito algum. Por isso eu chorei. Chorei desgraçadamente, vendo meu primeiro grande sonho se esfacelar nos pés de um cara que eu nunca havia ouvido falar, mas que jamais esquecerei. Reinaldo… Para torcida do Atlético, Rei, para um garoto de nove anos, um MONSTRO!
Mas me lembro do meu pai comentando que “é uma pena, o time jogou bem”, e entendi que na vida, às vezes você pode fazer tudo errado e dar certo, mas quando acerta também pode dá errado. Às vezes o futebol não é justo, às vezes a vida não é justa.
Naquela noite eu não queria driblar ninguém, não queria marcar gol nenhum, queria apenas ir pra cama em silêncio, pensando nos “e se?” que a gente sempre pensa nesses dias, e hoje eu sei bem disso, pois ainda teriam muitos desse na minha vida.
Já era tarde quando eu consegui pegar no sono, torcendo para sonhar que estava jogando bola no campinho do terreno que ficava ao lado da minha casa – pois lá eu já sabia como é ser um campeão – e quem sabe, no final do sonho, finalmente eu conseguiria ficar com a bola.

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